
Ela havia lido na internet um depoimento meu que tratava justamente dessa questão e me convidou a participar da matéria. Disse que eu tinha o perfil perfeito da pessoa que ela procurava.
Transcrevo abaixo o texto que escrevi e mandei pra ela. Procurei ser o mais honesta possível nas minhas declarações, embora saiba que não agradarei a todos. Mas essa sou eu: uma pessoa sem medo de dizer o que pensa.
ADOTAR UMA CRIANÇA OU UM ANIMAL?
- Sueli Gallacci
Sinceramente penso que essa questão nem deveria ser levantada, afinal são duas coisas totalmente diferentes. Tanto que a palavra ‘adoção’ era antigamente aplicada exclusivamente quando nos referíamos à humanos. Quando queríamos um bichinho de estimação dizíamos que iríamos comprar, ou arrumar um cachorro, um gato, etc.
Eu, como cristã, sei diferenciar entre esses dois seres, mas também sei que no amor, no respeito em nada diferem. O diferencial está na dedicação e nas responsabilidades envolvidas.
Adotar uma criança implica em muito mais, não basta dar ração, banho, carinho... Seres humanos carecem de um tipo de educação que forme o caráter, que aprenda valores, que respeite o planeta, o próximo, e por ai vai... É grande a lista.
Humanos tem o dom da fala e filho cobra, questiona. Desnecessário dizer que com os bichos não é assim. Mas é exatamente por isso que devemos protegê-los; devemos falar por eles.
Além do mais, filho vive mais tempo e é pra toda vida e mais um pouco. E quando esse filho faz um filho ainda na adolescência? Será que o levaremos ao pet-shopping para ser adotado?
Não me agrada a ideia de parecer exemplo a ninguém, afinal cada um é cada um – com seus anseios e limitações. Dou graças à Deus que temos nosso livre arbítrio, esse dom maravilhoso que nos permite fazer escolhas. Contudo, penso que quem tem amor pra dar não precisa passar por essa ‘escolha’, que no final das contas nem existe. É possível fazer as duas coisas perfeitamente bem. Eu fiz e não me arrependo. Tenho uma filha adotiva que hoje está com 25 anos. Uma moça linda cheia de virtudes que nos enche de orgulho. E tenho muitos bichos de estimação que eu chamo de ‘minha família animal’. Tenho verdadeira paixão por eles! Eu e meu marido sempre gostamos de animais e nossos filhos aprenderam a amá-los e respeitá-los. Tanto que moramos DENTRO de uma área ambientalista de proteção animal.
Quanto à adoção da minha filha, eu e meu marido a conhecemos num hospital gravemente doente. Tinha seis meses de idade e fora abandonada pela mãe biológica.
Decidimos adotá-la, não por que não podíamos ter filhos, pois já tínhamos um casal na pré-adolescência, mas porque ela adentrou nas nossas vidas de maneira irreversível desde o primeiro momento que a vimos. Isso para nós foi um processo natural, apesar de não estarmos procurando uma criança para adotar. Por um tempo fiquei me enganando, dizendo a mim mesma que a adotamos porque aquela menininha, tão frágil e rejeitada, precisava de uma família completa, com pai, mãe e irmãos. Mas eu estava enganada. Logo descobri que nós é que não podíamos mais viver sem ela!
O tempo passou e de lá pra cá muitas coisas aconteceram. Nossa batalha foi grande e muito penosa, tanto pra nós quanto pra ela. Ela passou por oito intervenções cirúrgicas e dezenas de internações. Ainda hoje aguarda por um transplante de rim no Hospital das Clínicas de São Paulo. Atravessamos momentos difíceis e o pior de todos foi a recusa da mãe biológica em doar um rim pra ela. Mas nem por isso ela se transformou numa pessoa amarga, ao contrário, é alegre, cheia de vida e nunca foi uma criança problemática. Nós não medimos esforços em prepará-la para tudo que teria que enfrentar.
Valeu à pena? Evidente que sim! Hoje ela está formada e já cursa a segunda faculdade. Nunca reprovou nenhum ano no colégio apesar das inúmeras faltas por causa do tratamento. Tantas alegrias tivemos, tanto orgulho sentimos dessa filha tão amada que é impossível falar nisso sem me emocionar.
Sou totalmente a favor da adoção de qualquer ser, seja de qualquer espécie. Só acho que devemos prestar mais atenção na falta de coerência. Vejo no meu Facebook páginas e mais páginas direcionadas à campanhas para recolher os animais abandonados nas ruas e encaminhá-los para adoção. Já vi uma pessoa mobilizar outras cem apenas para resgatar um cão! Isso me comoveu e me intrigou ao mesmo tempo. Ainda não vi tal mobilização para ‘resgatar’ uma criança que está na rua consumindo drogas. Ainda não vi nenhuma campanha em prol da adoção de crianças doentes, feínhas e com mais idade; e acho que nunca verei. Nunca vi, por exemplo, uma campanha para tentar conscientizar os casais que não podem ter filhos a optarem pela adoção e não pela inseminação artificial.
Agora, casais que não podem ter filhos optarem pela adoção de um, ou vários bichos de estimação ao invés de uma criança, já vi aos montes! E casais que podem ter filhos, mas não os têm para encherem a casa de bichinhos, também. Quanto a isso chego a sentir certo alívio, pois sei que essas pessoas não estão preparadas para serem pais. Não querem doarem-se com tamanho grau de envolvimento; não querem compromissos. Então, é melhor que seja assim pelo próprio bem da criança.
Contudo, não posso evitar pensar que crianças estão sendo barganhadas por cachorros!
Às pessoas engajadas na causa de proteção animal, digo que as admiro muito. Somente gostaria de ver a mesma disposição, do mesmo envolvimento, tempo e dinheiro gastos para conscientizar a sociedade da necessidade de mais adoções de crianças.
É claro que ninguém deve sair por aí dizendo ‘hoje eu decidi que vou adotar uma criança’. Deve ser uma atitude bem analisada e discutida em família. Aí está a diferença entre bicho e gente: raciocinamos, não somos regidos por instinto.
Eu só gostaria que as pessoas se importassem, não fossem tão omissas com nossas crianças. Também gostaria que as pessoas que pagam as tufas em dólares por um cãozinho, não virasse a cara quando passasse diante de uma cão faminto e sarnento.
Mas cada um é cada um, o que é bom pra mim pode não ser para o outro. Não podemos obrigar as pessoas a ter um coração elástico. Eu faço o que faço por que o meu grita alto.



