“O sonho encheu a noite. Extravasou pro meu dia. Encheu minha vida e é dele que eu vou viver. Porque sonho não morre” (Adélia Prado)

2 de jul de 2010

Mais respeito aos enlutados


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Este é um assunto muito chato a ser abordado, principalmente pra mim, que sempre ensinei aos meus filhos que não se deve ter preconceito.
Aliás, anda na moda isso, ultimamente: muito se fala do não-preconceito. Devemos aceitar a todos como são, igualmente e sem distinção, certo?

Médio.

Não falo em raça, condição social e cultural, nada disso: falo de comportamento.
Aquele comportamento, que mesmo não ensinado, aprendemos observando e ponderando entre o que é certo e o que é errado - sem que haja a necessidade de regras preestabelecidas. Afinal, não somos bichos, temos capacidade de raciocinio, só não aprende quem não quer. Informação há, em toda parte e em qualquer lugar.

Recentemente faleceu uma pessoa do nosso convívio, e obviamente, fomos à cerimônia de sepultamento.

Começo dizendo que sou totalmente contra velórios prolongados, esses de virar a noite. Não entendo por que estender uma coisa, que por si só, já é maçante; e, muitas vezes, constrangedora para os familiares. Eu, pelo menos, me senti assim: cons-tran-gida!

As pessoas não sabem se comportar diante de uma cerimônia desta natureza, esta que é a verdade. A maioria é do tipo “não quero nem saber quem morreu, eu quero é chorar!”. Isso passa longe de demonstrar sentimento, fica uma cena patética, teatral, e não convense niguém.
 
Mas é somente na hora que chega o corpo, porque depois, durante a madrugada, vão se formando rodinhas de pessoas contando piadas para espantar o sono.

Há ainda aqueles que se espremem para arrancar meia lágrima debruçados no caixão - mas, antes dão aquela espiadinha básica para se certificar que tem alguém olhando.

E sempre tem um, que lá pelas tantas, aparece com uma garrafa térmica e uma bandeja de salgadinhos, e aí, a coisa vira um piquenique.

E a maneira como se vestem, então? Ok, não precisam vestir preto da cabeça aos pés e óculos escuros como se estivessem prontos a fazer um bico de figurante na novela da Globo. Todo mundo têm uma roupinha limpinha, ajeitadinha no guarda-roupa, ou será que não? Se não tiverem, que peçam emprestada.

O que não devem fazer, é aparecer num velório de bermuda, camiseta e tênis como se tivessem se aprontado para uma caminhada no Ibirapuera. Teve um que chegou em cima da hora enfiado numa roupa de academia, dessas bem colada ao corpo: estava até meio suado, o infeliz, deve ter vindo correndo para não perder o pique.

Um outro estava fantasiado de vendedor: camisa branca, gravata e paletó jogado no ombro. Andava de lá para cá falando alto e incessantemente no celular. E quando desligou, levou as duas mãos à cabeça, num gesto flagrante de impaciência. Apostei que ele estava pensando: esse fdp tinha que morrer justo hoje que eu estava quase fechando essa venda!

E as mulheres?... Era um contraste que chegava a doer! Umas pareciam que tinham se vestido para irem ao shopping, com bijús enormes e maquiagem carregada. Outras, para um concerto de ópera - não esqueceram nem o leque, só faltou mesmo os binócolos.   
De contrapartida, teve algumas que nem se deram ao trabalho de calçar um sapato, foram de chinelinho mesmo. Fiquei imaginando que só tiraram o avental molhado no tanque de lavar roupas.

Mas nada disso foi pior do que a combinação bota-preta-cano-longo-salto-agulha-meia-arrastão-e-mini-saia!... affff, essa, sinceramente eu não aguentei!!!

Quando eu era criança, lembro-me que as pessoas tinham mais cuidado no vestir quando iam a um velório. Os homens sempre de terno com uma faixa preta em torno da manga esquerda do paletó, em sinal de luto. Meu pai me explicou que tinha que ser do lado esquerdo, pois é o lado do coração.
As mulheres se vestiam com capricho e discrição. Nem sempre se vestiam de preto, mas nunca, em hipótese alguma, vestiam roupas coloridas e espalhafatosas. Maquiagem carregada, nem pensar!

Eu pergunto: o que aconteceu com esses valores?

Comentei isto discretamente com uma pessoa presente. Então ela me disse: “mas ele já morreu mesmo, não está vendo nada”

Brrrrrrrrrr óbvio que não me referia ao morto, e sim, aos familiares enlutados que merecem respeito.

No entanto, a resposta dela me fez concluir, pasmadíssima, que noventa por cento das pessoas que ali estavam eram justamente da família. Lamentável...

4 comentários:

  1. Sueli!! rsrs
    Credo, o assunto é sério demais, mas estou rindo do lado de cá da maneira que contas as coisas. Ta muito engraçada a narrativa das roupas... E pior ainda, uma frase que eu não conhecia: ‘não quero nem saber quem morreu, eu quero é chorar!’. Rsrsrs Pô, desculpe, mas tenho de rir! E a olhadinha básica... Assim não dá pra te ler, guria!!! Ler dá, mas ficar séria, não!

    Olha, nada tão certo quanto ao pic-nic!!! Quando meu pai faleceu, a funerária enviou uma cesta enorme de guloseimas!!! Pode? Claro que foi um pic-nic!

    As piadinhas são comuns, lembro que meu irmão até hoje não pode ver a pessoa que contou uma piada fora da sala em que estava meu pai. Mas aquilo era um velório.

    Olha... eu, de preferência não quero ninguém no meu velório; quero apenas que verifiquem se morri mesmo.

    Sueli, desculpe... Tua crônica é ótima! Acho que pensaste em escrever de um jeito sério, mas quando estava lendo não agüentei. Sabes por quê? Porque é exatamente como narraste, a maioria não está nem aí, não entendo por que vão.
    Assino embaixo.

    Beijão
    Tais luso

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  2. Apesar de ja ter se passado 2 dias mas seu aniversario sera comemorado por mim por varios dias, porque vc é minha amiga muito amada!Que chuvas de bençãos sejam derramadas em sua vida!!bjs Jo.

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  3. É........ os valores se foram. Infelizmente.

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  4. Sueli, é claro que num velório eu não acho a menor graça, mas aqui não tem como não rir. Sua narrativa é a tradução mais perfeita desse que virou um evento como tantos outros onde as pessoas dão seu jeitinho de arrancar 15 minutos de fama. Adorei a crônica. Meu abraço. Paz e bem.

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Sejam bem vindos! Sintam-se a vontade. Comentem, digam o que pensam. Podem rodar a baiana, só não cutuquem a onça com vara curta, ok?... rs