“O sonho encheu a noite. Extravasou pro meu dia. Encheu minha vida e é dele que eu vou viver. Porque sonho não morre” (Adélia Prado)

10 de set de 2011

Príncipe Encantado existe, sim...


Olá meus queridos amigos!

Saudadona de vocês, viu... Peço desculpas pela minha ausência.
Por motivo de força maior não tenho postado e visitado os amigos com a mesma freqüência de antes. Sempre dizemos que o motivo é de ‘força maior’ toda vez que não queremos dar maiores explicações rsrs. No meu caso é que não quero me tornar repetitiva.

Embora esteja dando um tempo na blogosfera, resolvi escrever no blog hoje por que é um dia muito especial pra mim... Hoje está completando 40 anos que eu trombei com o meu príncipe encantado! Ele chegou num cavalo branco, raptou-me em sua garupa e roubou o meu coração...

Ok, a parte do cavalo branco é delírio, mas o resto é verdade rsrs.

Ele também não chegou num fusquinha branco porque nem tinha idade para dirigir. Tinha acabado de completar 16 anos, era só um menino de cabelos encaracolados e olhos brilhantes...

E mentiroso, disse que tinha 18, e eu acreditei, pois tinha cara e porte de 18. Ele nem precisava ter mentido, me apaixonei tão imediatamente quanto permitiu minha insanidade juvenil.

Eu, que já tinha 17, era um tipo de versão antiga da Patricinha da atualidade. Às vezes chamada de Barbie. Segundo ele, foi isso que mais o atraiu, mas teve um cupido nessa história. Melhor dizendo, foram dois cupidos: minha mãe e a pipoca.

Se eu acreditasse em destino diria que tudo naquele sábado conspirou para que nos encontrássemos. Minha mãe me obrigou a acompanhá-la numa visita aos futuros sogros do meu irmão, quando eu queria mesmo era sair com as minhas amigas... Ela nunca fazia isso! Chegando lá, o irmão da noiva do meu irmão pediu para eu ir num cineminha fulero segurar vela pra ele e a namorada. Pensei em recusar, mas minha mãe disse que eu não estava sendo educada e insistiu que eu fizesse companhia ao casalzinho, visto que a mãe da moça não permitia que ela saísse sozinha com o namorado.

Eu nunca tinha ido naquele cinema, apesar de ficar bem próximo à minha casa. Mais próximo ainda ficava da casa dele. Hoje fico pensando em quantas vezes estivemos perto um do outro, sem saber, ao longo de toda nossa infância e adolescência, já que morávamos tão perto e tínhamos praticamente os mesmos amigos. Sei lá, a vida é mesmo engraçada...

Engraçado foi o fato de eu ter me produzido toda pra sair com a minha mãe. Até parece que pressenti que aquele dia seria especial quando decidi vestir meu taier cor-de-cenoura que acabara de buscar na costureira. Eu tinha visto numa revista alemã de moda, a Burda, que a saia midi era a última moda na Europa. Presumi que logo chegaria ao Brasil e me antecipei: comprei um corte de lã e levei para costureira.

Confesso que me senti como alguém vinda de Marte, com tantos olhares que atraí quando saí na rua com aquela sai comprida até o meio da canela. O ano era 1971 e a moda não era tão democrática como é hoje. Todas as meninas usavam mini-saia, era uma febre e nenhuma delas estava disposta a descer nem um milímetro da bainha!... Será que alguém vai se lembrar disso?...

Pensando melhor agora, eu não poderia passar despercebida mesmo... Nem pra ele que ainda é um poço de distração nessas questões de vestimenta feminina. Mas ele me disse depois que me achou ‘diferente’, ‘elegante’... e beeeeeem mais velha do que ele, por isso aumentou sua idade rsrs.

Talvez tenha sido os meus longos cabelos presos num coque no alto da cabeça... Ou talvez os meus sapatos de salto alto de verniz preto. Ou talvez o conjunto todo.

Eu ficaria horas aqui descrevendo os pormenores daquele dia, mas vou direto ao que interessa:

O filme não prestava, a pipoca tava salgada e eu não estava a fim de segurar vela pra ninguém. Fui dar um rolê pelos corredores, procurar um lixo pra jogar aquela pipoca. Alguém falou na semi-escuridão: ‘estou com uma vontade tão grande de comer pipoca’.

Eu parei e me virei em direção à voz. Um clarão do filme aconteceu bem naquele momento e nossos olhos se cruzaram. Eu caminhei até ele e depositei o saquinho todo dentro das suas mãos em concha. Dei a ele toda aquela pipoca salgada. Mas também dei o meu sorriso mais doce. Em troca ele me deu um passado, presente e um futuro de plena felicidade... Deu-me uma linda história de amor... e filhos maravilhosos.

9 de ago de 2011

Somos a geração obaoba

- sueli gallacci

Será que alguém já parou pra pensar quantas vezes por dia falamos em Deus?

No alívio: Graças à Deus!
No medo: Deus que me livre!
No apuro: Ai meu Deu!
No susto: Deus do céu!!!
Na esperança: Se Deus quiser!
No consolo: Deus sabe o que faz. 


Mas a pior de todas é: Deus quis assim.

Deus meu, essa é de lascar! Fazemos de Deus alguém de costa larga. Beeeeeem larga. O culpado de tudo!

Embora isso não seja, nem de longe, uma exaltação ao nome do Senhor, parece-me que assumimos o quanto somos apelativos.
Apesar disso, não estamos nem um pouco preocupados com o que Ele pensa a nosso respeito. Nem se Ele pensa.
Afinal, Deus está tão longe, deve ser tão ocupado, imagina se vai se preocupar com essa bobagem de retribuição... E quando precisamos, Ele, na sua infinita misericórdia, dá aquela mãozinha básica.

Falamos muito em Deus, mas quando encontramos uma pessoa teocrática, que afirma confiar mais na palavra dEle do que na de homens, aí é piegas, falta de inteligência, e muitas vezes sofre preconceito.   

Lamentavelmente damos mais crédito a eruditos do que a Deus.

Acreditamos em Deus e até afirmamos 'ter fé', mas tudo tem que ser muito vago, superficial, nada de envolvimento, senão, a coisa fica séria demais e começa a envolver responsabilidades.

Não interessa muito o que Deus requer de nós, afinal, somos honestos, trabalhadores, bons pais, boas mães, bons filhos, bons vizinhos, e ainda de quebra, somos generosos e praticamos a caridade uma vez ou outra...

Na verdade, não fazemos nada de extraordinário, todas essas coisas é o dever de cada um de nós – e ainda somos beneficiados por isso.

Mas fazer mais do que isso??? De jeito nenhum! Estamos ocupados demais com nossos projetos de vida.

VIDA!

Vida é o que está envolvido, mas temos tempo para pensar nessas coisas. A morte tarda a chegar, então, vamos comemorar... Afinal, esse é o país do carnaval, e não demora, o samba vai esquentar...

O mais engraçado é que todos nós amamos a vida. Que atire a primeira pedra aquele que não gostar de estar por aqui. Gostamos de viver, mas ser agradecidos pela vida é outra história. Nem precisamos saber de como ela surgiu, isso é coisa pra cientista.

Viver o 'aqui e agora' é o que realmente nos interessa. Somos bastante crescidinhos e donos dos nossos próprios narizes para tomar nossas decisões sozinhos.  Somos autossuficientes, e tudo do que não precisamos é de um Deus tirano nos ditando regras. Afinal, quem garante que Ele sabe o que é melhor para nós?

Tenho uma amiga muito engraçada que assume fazer parte do grupo do “tô nem aí”. “Sou a legítima cumpridora de 1ª Cor. 15:32” (comamos e bebamos pois amanhã morreremos [mesmo!]) – disse-me ela.
  
Apesar de todo esse descaso da parte de uns, parece-me que há uma fome voraz de espiritualidade da parte de outros. Nunca na história desse país se fundaram tantas igrejas. Elas se proliferam, brotam que nem agrião no brejo. Há uma delas em cada esquina, com os mais variados nomes, equipadas com suas fórmulas mágicas para nos salvar dos pecados e nos qualificar para o paraíso (no céu).

Outro dia resolvi ir conhecer um hipermercado recém-inaugurado num bairro aqui perto. Fazia algum tempo que não passava pelo local e fiquei admirada com a quantidade de igrejas recém-inauguradas que vi: contei 7 delas em apenas uma rua!

Por mais que eu me esforce, não consigo acreditar que todas elas, diferentes em tudo, representam caminhos que levam ao mesmo Deus, como afirmam alguns. Isso seria o mesmo que afirmar que todos os mapas levam para o sul.
Ora, se eu quero ir para o norte, não vou seguir um mapa que me leva para o sul, isso me parece óbvio. Nesse caso, não vou entrar em nenhuma daquelas portas.
  
Deve haver um caminho, apenas um, que nos leve ao destino certo. Resta saber se estamos interessados em encontrá-lo.

Enquanto essas indagações povoam  minha mente, me pergunto se Deus não está com o dedo apontado bem na direção certa. Todos nós deveríamos estar profundamente envolvidos nesse questionamento. Deveríamos, mas não estamos. Tudo que fazemos é continuar falando dEle como falamos do “Seu Zé da quitanda”.

Falar de Deus com  as pessoas é saudável e necessário. É mais do que isso, é um mandamento. Além do mais, demonstra toda nossa gratidão pela nossa existência. Porém, existem critérios a serem respeitados. Jesus nos deixou um exemplo valioso quanto a isso quando enviou os setenta discípulos à diversas cidades na divulgação 'das boas novas do Reino'. Ele deu instruções claras de como deveriam se comportar: tinham que visitar as pessoas de casa em casa, dirigindo-se pessoalmente à elas. E, se determinada cidade não fosse receptiva, deveriam deixá-la imediatamente e não levar 'nem a poeira sob suas sandálias' – uma maneira poética de dizer que não deveriam insistir, ou pensar em voltar.

Por diversas vezes Jesus deixou claro que haveria os ouvintes e os não-ouvintes 'da palavra'.  Quem está bem preparado sabe 'separar o joio do trigo' para não parecer chato ou intrometido.

E nós, os que não queremos ouvir, vamos empurrando com a barriga e tocando a vida adiante.

Com muito obaoba, naturalmente!


21 de jun de 2011

Vende na farmácia?



Certas coisas deveriam ser vendias na farmácia: caráter, por exemplo. Já imaginaram?... Caráter em pílulas!
E deveria ser bem baratinho, comprado sem receita médica. Assim, todos teriam acesso.

- Um frasco de caráter, por favor – pediria o sujeito ao balconista. E acrescentaria: "pensando bem, acho que vou levar um de respeito ao próximo, também".

Outra coisa que deveria ser vendida é vergonha na cara. Mas não na farmácia, em lojas de roupas. Seria uma camiseta que a pessoa vestisse e tcham-tcham-tcham!!! Num passe de mágica adquiria princípios morais. E acompanharia a camiseta uma espécie de bula com instrução recomendando seu uso também à frente do computador...

...

Devaneios à parte, o que eu quero falar é da minha decepção: aquela ‘coisa’ que sentimos quando descobrimos que não é bem assim que a banda toca.

Eu tenho o péssimo hábito de medir as pessoas com a minha própria régua: se eu não faço, fulano também não faz, certo?... ERRADO!

Com frequência tenho trombado com pessoas interesseiras, falsas, dissimuladas, oportunistas e mentirosas... E elas estão por aí,  em toda parte. Pessoas dispostas a tudo por um bocadinho de glória – brilhar nos seus quinze minutos de fama. O lado irônico é que elas insistem em brilhar na sombra dos outros.

São pessoas acima de qualquer suspeita, cultas, inteligentes, polidas... E você se deixa levar pelos encantos, acredita, exalta, elogia e aplaude!

De repente uma coisinha aqui... outra ali... e descobrimos que nem tudo que reluz é ouro. Mesmo.

E a minha pergunta é: será que não dá pra ter um pouquinho mais de ética no trabalho, na sociedade, nas redes sociais e etc.? Será que vale tudo para se auto-promover?

Não que seja da minha conta o que as pessoas fazem, e como elas conduzem as coisas nas suas vidas, mas confesso que não sei lidar com falcatruas.  Não sei como ser parte de um todo quando não há integridade, verdade absoluta. Nesse caso, toda minha vontade é tomar aquele chá lá da foto e virar purpurina ao vento. (pelo menos saio em grande estilo)

Será que posso deixar que continuem ofendendo a minha inteligência?... Será que devo esperar até esgotar a minha paciência e continuar fazendo cara-de-retrato-falado, fingindo que não estou vendo nada?

Não, meus amigos, não dá pra mim! Não dá pra assistir muitos lucrando em cima do sacrifício de poucos! Talvez eu tenha que enfiar a minha viola no saco e cantar em outra freguesia.

O grande problema é que nem percebemos e já estamos enquadrados num estereotipo. Num formatozinho ardiloso, repleto de jogos de interesses do toma-lá-dá-cá. Onde vale tudo, tudo mesmo! Até duplas, triplas, quádruplas identidades. Sem questionar, seguimos arrastados numa corrente que não nos levará a lugar nenhum, ou melhor, nos levará, sim, a uma grande decepção como escrevi no começo!

Sair fora do 'esquema' significa ganhar o anonimato e ver todo um trabalho escorrer pelo ralo. Estou agora falando de tempo – tempo perdido, suado e cheio de boas intenções.

Não é o meu tempo, nem o meu trabalho, são de todos aqueles que ralam com seriedade.

Triste é saber que o individualismo, a vaidade desacerbada de alguns é contaminante. Assim como uma única laranja podre faz apodrecer o cesto todo, talvez daqui alguns anos não sobre nada que valha a pena. O último 'bom' que ficar que feche a porta e apague a luz.
  
Por enquanto, o negócio é reformular, rever o chão que se pisa... pelo menos aonde temos autonomia pra isso.  Tudo que me ocorre nesse momento, é segurar os bons na peneira e deixar passar os espertinhos. Esta é a única maneira que vejo para continuar sem aborrecimentos. Sempre achei que menos é mais, e qualidade nunca fez parceria com quantidade.

Devia ter seguido a minha intuição desde o começo...

21 de mai de 2011

Que lingua é essa? rsrs


Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.
 

Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.
 

O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.
 

Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.
 

Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.
 

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.
 

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.
 

Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.
 

Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
 

Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.
 

Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.
 

Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
 

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

REDAÇÃO DE ALUNA DA UFPE
Redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE Universidade Federal de Pernambuco (Recife), que venceu um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa.

28 de abr de 2011

Tô passada!... da idade.


Minha intenção era escrever um poema que retratasse com bastante leveza a minha idade madura . Planejei tudo cuidadosamente: começaria com a manjada frase “Cada idade tem a sua beleza” e, depois, daria um enter para a linha de baixo e começaria a descrever toda essa beleza...

Foi aí que o bicho pegou.

Na boa, gente, não consigo ver beleza nos meus cabelos ficando cada vez mais finos e mais ralos... Nem na minha pele ganhando um aspecto amarrotado igual à minha blusa de viscose quando sai do varal. Vai chegar a hora que vou ter que substituir o Botox pelo ferro de passar. Desculpem-me, mas não consigo ver beleza nessa triste realidade!

Decidi deixar a beleza de lado e falar das vantagens de ser uma mulher madura. Afinal, nós da idade madura, carregamos um bocado de experiências nas costas... Nesse ponto reli o texto e substituí experiências por 'inutilidades adquiridas'.

Do que nos vale tanta experiência se ninguém nos ouve mais?  A essa altura da vida, os filhos já tomaram seus rumos e voam sozinhos. Ou, se estatelam no chão, também sozinhos.

E os amigos? Podemos passar toda nossa experiência de vida pra eles...

Bem, nossos amigos certamente fazem parte do clube, e como dizia meu pai, burro velho não aceita cabresto.

Ainda pensando no poema, fui navegar pela internet em busca de inspiração. Caí numa crônica com uma visão tão pessimista da 'coisa' que traumatizei. Logo de cara me deparei com as palavras: artrite, artrose, esclerose, catarata e o escambau!

Fiquei com depressão.  Sai desse corpo que esse corpo não te pertence...

Respirei fundo e insisti na leitura; cheguei ao final onde estava escrito “envelhecer com saúde”.

É isso! – pensei animada – vou falar de saúde!

Bati daqui, bati dali, e não consegui juntar as palavras 'envelhecer' e 'saúde' na mesma frase. Minha razão inimiga cochichava no meu ouvido que quando entramos na idade madura estamos caminhando à passos largos em direção a... Vocês sabem.

Agora, começo a imaginar um diálogo mais ou menos assim:

Pobrezinha!... Ela morreu de quê?
De saúde. Tinha tanta que não aguentou...

Definitivamente envelhecer e saúde são palavras opostas.  Minhas fichas começaram a cair quando meu oftalmologista passou a lembrar do meu nome e sobrenome. Quando tive que mudar meus remédios de uma caixinha para um armarinho maior. Quando desci minhas tralhas para o andar de baixo. E quando os meus dias passara a ter 12 horas.

Um pensamento passa como um flash pela minha cabeça: se estou na idade madura, pela lógica o que vem depois é a idade podre... Jesus, joga a boia!

O irônico dessa história é que a minha idade mental não bate com a idade da minha certidão de nascimento. No meu íntimo ainda me sinto com 18 anos! Ainda insisto em dançar I Will Survive nas festas e, volta e meia, vou pra balada com meu filho. Ainda uso os mesmos modelitos de roupas que as minhas filhas usam e vou até às últimas consequências para me equilibrar num salto quinze.

Tive um aluno adolescente que me chamava de 'minha-profe-bicho-grilo'. Ele vivia dizendo que falávamos a mesma língua. Eu de fato gosto da companhia dos jovens e me sinto a vontade entre eles. São nesses momentos que eu esqueço que envelhecer é mesmo uma bosta, como disse Jorge Amado. Mas com jeitinho vou vivendo de ilusões numa reflexão adiada.

Quando é que eu vou envelhecer interiormente?...  Bem, isso eu ainda não sei. Essa ficha ainda não caiu.Um dia vou começar a me sentir ridícula e inadequada. Um dia. Não tem que ser agora.

16 de abr de 2011

Outono - a estação romântica?


É linda essa foto, vocês não acham? Todas essas cores do outono, começando pelo laranja que vai passando suavemente para os vermelhos mais quentes, chega a emocionar... Estou aqui olhando pra ela e pensando que ela deve servir de inspiração para muitos poetas...

Não é verdade.

Estou aqui olhando pra ela e imaginando todas essas folhas em cima do meu telhando entupindo calhas e rufos!
 
Perdoem a minha falta de romantismo, mas é isso que o outono me traz: a água da chuva procurando caminhos pelo meu telhado, e encontrando-o  pelo forro de cedrinho tipo exportação da minha sala de estar. Descobri isso ontem quando uma gota explodiu bem no meio da minha testa enquanto descansava no sofá. Eu olhei para cima e pude imaginar uma lagoa em formação entre o telhado e o forro.

Está na hora de chamar o 'Sr. Quebra-galhos' para limpar o telhado – pensei meio amargurada.

Normalmente não sou tão amarga assim. Talvez seja esses dias chuvosos. Talvez seja os passarinhos que não cantam e os beija-flores que se escondem. Talvez seja porque a beleza fugiu dos meus olhos nesses dias cinzentos...Ou, talvez, as coisas tenham que estar dentro de um contexto para parecerem belas.

Amo morar em meio à natureza e respeito todas as suas manifestações, contudo tenho minhas preferências. O sol, o calor, a primavera, essas fazem a minha cabeça e me dão vontade de cantarolar o dia inteiro. O outono/inverno me deprime e me expõe a situações bizarras de folhas secas versus vento e minha vassoura no meio desse duelo.

Quando eu era adolescente ganhei de presente do meu pai um compacto simples do Roberto Carlos (lembram-se?). De um dos lados daquele disquinho de vinil, tinha a música “Folhas de Outono”. Eu adorava essa musica e vivia cantando:

“As folhas caem
O inverno já chegou
E onde anda
Onde anda o meu amor...”

Ficava toda suspirante imaginando por onde andaria aquele que seria o meu amor...

Nesse exato momento ele está lá fora quase soterrado numa montanha de folhas secas que rastelou do gramado!

Como é engraçada essa vida...

O tempo passa e as coisas vão mudando de cara. Ou será que somos nós que mudamos?... Não é que elas perderderam a importância, a importância é que as perderam...

Às vezes me sinto como alguém que parou de dançar antes da musica acabar.  

14 de mar de 2011

Desejo


Arte Digital

Ando...
Em estado interessante,
Cheia de desejos...

Desejo a sorte
Que não acredito
Desejo as bênçãos
Que tenho pedido.

Desejo dar a luz
Para o fim do túnel.
E um interruptor que apague
O pessimismo.

Desejos assim, tão pertinentes
Só podem ser de mulher grávida
Daquelas que a espera
Parece não ter fim!

Enquanto espero, continuo
Cheia de desejos...

Espero e desejo
Parir um futuro
Lindo, sorridente...

Ainda que com dores de parto,
Ainda que eu tenha que escoar
Todo o meu sangue incompatível
De mãe de mentirinha.

Desejo,
Convicta de que sou mãe de verdade,
Parir um futuro
Para aquela que eu não pari.

-sueli gallacci

11 de fev de 2011

Perseverança é o nome dela


O que os pais podem fazer quando um transplante não chega?
Um rim para nossa filha é tudo que pedimos a Deus.


Amigos!

Estou afastada por um tempo vivendo dias difíceis, mas sem jamais perder a fé e a esperança.
Espero estar de volta em breve trazendo boas notícias.
Um beijo carinhoso a todos.

1 de fev de 2011

Alguém viu minha memória por aí?


Outro dia recebi um email dizendo que o Aspartame causa o Mal de Alzheimer.
Não dei nenhuma importância, visto a quantidade de emails assustadores que eu recebo diariamente. Eu só começo a dar importância às coisas desse tipo quando aparecem no Fantástico. Deletei o tal email e continuei tomando meu cafezinho com 17 gotas de adoçante (não é uma piada, eu tomo adoçante com café).

Mas o que aconteceu comigo logo depois me levou a lembrar do tal email, desta vez com real preocupação: tive um apagão daqueles! Deu branco, branco total! Inexplicável! Constrangedor!

Pensei muito na minha avó paterna que sofria de Alzheimer e, segundo dizem os médicos, é uma doença genética. Minha avó se esqueceu de tudo, até dela mesma. Vivia fugindo de casa e deu um trabalhão danado! Mas ela tinha noventa anos e eu só tenho cinquenta e unsss...

Voltando ao ocorrido, vou descrever exatamente como aconteceu:

Eu estava no estacionamento do hipermercado quando uma moça morena e sorridente caminhava saltitante em minha direção. Ela carregava sacolas, logo presumi que estava de saída e eu acabara de chegar, ainda descendo do carro. Pelo sorriso largo que ela exibia dava pra notar que ficou feliz em me ver ali. Eu ainda olhei para os lados para me certificar se todo aquele entusiasmo era mesmo comigo. E era. O rosto era familiar, isso percebi logo de inicio, mas quem era ela? De onde nos conhecíamos?

Na medida que ela caminhava em minha direção, fiz um esforço descomunal para tentar me lembrar. Lembrar do nome, então, seria o mesmo que pedir por um milagre!

Ela aproximou-se esfuziante e, beijinho pra cá, beijinho pra lá, nossa intimidade era evidente:
- Nooooossa que bom te encontrar por aqui, já estava com saudade.
- Eu também – menti.

A atitude dela me desarmou completamente: se a gente não faz a pergunta “de onde mesmo que nos conhecemos?” logo no início, não fazemos nunca mais.

- Ainda ontem eu e a Marisa falamos tanto de você...

Deus meu, quem é a Marisa? Mais uma personagem entrava na história para agravar ainda mais a minha angústia.

- É mesmo? – perguntei ao acaso E por falar nela, como ela está? – espertinha eu, agora sim, vinha uma pista...
- Está ótima! – morreu o assunto. Sai de cena a Marisa.

Eu já começava a suar por todos os poros e levar aquela conversa adiante era coisa pra mestre do improviso. Eu iniciava as frases com as palavras: viu... sabe... olha... então..., tudo em substituição do nome dela.

Conversa vai, conversa vem, e a dado momento eu não estava mais ali, minha mente viajava vertiginosamente entre o presente e o passado: talvez ela seja uma antiga aluna de pintura, daquelas que já decorou a casa e sumiu... Não, não pode ser, a costumeira frase “preciso voltar às aulas” nem rolou na conversa... Ou, quem sabe, ela é uma daquelas diaristas extras que eu chamo de vez em quando... Mas com essas unhas impecáveis? Duvido! Quem já faxinou a minha casa fica com as unhas destruídas pro resto da vida!... Além do mais, ela parece gostar de mim...

A situação começava a ficar insustentável. Pra mim, pois ela parecia não notar nada e continuava falando, falando... E eu saindo, saindo... pela tangente.

Na primeira brecha pedi desculpas e disse que estava com um pouco de pressa. Despedimos-nos e ela ainda me disse: “me liga se for mudar de horário”.

HORÁRIO – Essa palavra ficou martelando na minha cabeça.

Como sempre faço, comecei pelo setor de hortifrutigranjeiros, mas não conseguia me concentrar nas compras. Toda vez é assim: quando esqueço algo, a coisa não sai da minha cabeça, perco a paz e penso naquilo dia e noite!

Não posso esquecer do alho... Mudar de horário, que horário?!... Noooooossa como a vagem tá cara, será que tá em extinção?... Seria o horário de alguma consulta médica?... Me recuso a pagar por esses tomates atropelados... Será que ela é a mocinha da recepção de algum consultório médico?... Não tem ovos brancos?Na boa, sem preconceito, mas se a galinha não for branca eu tenho nojo... Será que eu já tô tratando do meu Alzheimer e me esqueci?... Olha o preço desses pimentões, devem estar vermelhos de vergonha... Quando chegar em casa vou olhar na agendinha se tenho consulta marcada com algum psiquiatra... Onde eles colheram essa alface, na lata do lixo?... E se eu esquecer de olhar na agendinha?...

A caminho de casa eu ainda pensava na tal moça. Repassei mentalmente dezenas de vezes a nossa conversa. Talvez eu tivesse perdido algum detalhe.

Talvez ela nem exista... Talvez ela seja apenas uma invenção da minha cabeça, um tipo de personagem imaginário dentro da minha loucura... Talvez não seja Alzheimer, talvez seja esquizofrenia... Talvez eu estivesse mesmo doente. Talvez não. Talvez eu sempre fui assim, eu é que não sei... Dizem que quem não é normal não sabe que não é... Mas eu já perguntei pra minha mãe e ela jura que eu sou... normal...

Quando estacionei na garagem de casa, minha filha caçula apontou na porta e perguntou:

- Lembrou de comprar a acetona que te pedi?

- LEMBREI!!! – gritei eufórica.

- Da acetona?

- Não, lembrei DELA!

- Dela, quem?

- Da minha manicure.

Em seguida peguei minha agendinha e fui direto para o telefone:

- É do consultório do Dr. Daniel? Eu quero marcar uma consulta. Urgente!

- A senhora ligou errado.

12 de jan de 2011

É proibido proibir


Quem de vocês moram em condomínio?... Eu moro.
É bom, não é mesmo?... Segurança nota dez, vivemos cercados de pessoas do mesmo nível cultural/sócio/econômico e não nos sentimos um peixe fora d’água.Tudo parece perfeito...
Mas nem tanto!

Todos nós, quando decidimos ir morar em um condomínio, seja ele vertical ou horizontal, devemos estar cientes que vamos dividir espaços. E dividir espaços com um bando de gente desconhecida não é fácil. As opiniões divergem, é um bate-boca sem fim, e, se por ventura, você não pôde comparecer àquela assembléia extraordinária, os que compareceram decidirão por você.
E não adianta reclamar depois.

Foi isso que aconteceu aqui no condomínio onde eu moro. Eu até me considero uma pessoa tolerante, me relaciono bem com meus vizinhos e não saio por aí comprando briga por qualquer motivo banal. Ando mais na fase de plantar a paz entre os homens.

Até entro numa enrascada ou outra, mas nada que não se possa contornar sem prejuízos mútuos. E prejuízo, aquele bem literal ($$$$$$) é coisa séria, ninguém gosta de se sentir lesado, enganado, passar por idiota. É desse prejuízo que quero falar.

Tá na moda aqui por essas bandas a tal da multa: multa do lixo, multa do jardim mal cuidado, multa do carro estacionado na calçada, e por aí vai... Todo mundo sabe (mas finge que não sabe) que isso nada mais é do que uma manobra que arranjaram para angariar fundos e tapar o rombo da administração anterior.

Eu, de minha parte, seguia fingindo também, até porque não compareci a tal assembléia da multa. Decidimos, meu marido e eu, que não participaríamos mais das assembléias onde ninguém se entende, e que se tivéssemos que brigar, que seria na justiça. Mas tudo tem um limite. Até a minha paciência.

Poucos dias depois da tal assembléia eles distribuíram placas por toda parte, de fato não conseguimos andar cem metros sem tropeçar numa delas. E todas começam com a palavra “proibido” e finalizam com a frase “sob pena de ser multado”.
A mais engraçada é a placa de "proibido alimentar os animais silvestres"... Vai dizer isso aos macacos!
Ou, ensinem eles a ler.

Outro dia recebi a multa do cão solto. Entre outras baboseiras, estava escrito: “... por colocar em situação de risco a vida dos condôminos e teretetê, teretetê, teretetê”... e lá embaixo, em negrito, o valor da multa: R$98,00.

Ah, sim, foi o Bernardo – o meu cão – que fugiu para dar uma voltinha. E eu pergunto: qual o risco? Ele só pesa 1,300kg!!!

Já fui multada algumas vezes por excesso de velocidade, mas devo esclarecer que concordo com o limite imposto que é de 30km/h. O que eu não concordo é com o nosso radar: o olhômetro do "severino" fofoqueiro da segurança. O que ele quer é ver o circo pegar fogo!

Piadas à parte, a multa do cão solto esgotou a minha paciência e resolvi me vingar. Só tinha que esperar o momento certo. Ele veio mais rápido do que eu imaginava.

Minha casa é a última de uma rua sem saída, depois tem uma área de reserva de mata que se estende até o final da rua onde há um retorno. Mas quem retorna lá no final da rua? Ninguém! Todos acham penoso andar mais alguns metros e retornam aqui mesmo, na entrada da minha garagem, esmagando meu gramado. Os mais barbeiros destroem meu jardim.

Eu vinha tolerando isso calada desde que moro aqui, até que no mês passado um caminhão basculante carregado até os tufos despejou uma avalanche de terra no meu jardim, sufocando minhas Marias-sem-vergonha.

Claro, tomei as dores delas, mas tive uma atitude descente: fiz uma reclamação por escrito à administração e dias depois recebi um email frio, impessoal, cheio de formalidade como resposta. Em outras palavras sugeriram que “eu me entendesse com a empresa que cometeu a infração”.

Meu primeiro impulso foi responder que “a empresa” se resume ao motorista do caminhão, e só! Mas me contive. Mandei fazer a minha placa particular e plantei bem fundo no meu jardim: PROIBIDO RETORNAR NESSE LOCAL – SOB PENA DE LEVAR UM TIRO.

Não deu outra: Fui multada!
Motivo: Ameaça aos condôminos.

Pelo menos mandei o meu recado.