“O sonho encheu a noite. Extravasou pro meu dia. Encheu minha vida e é dele que eu vou viver. Porque sonho não morre” (Adélia Prado)

28 de abr de 2011

Tô passada!... da idade.


Minha intenção era escrever um poema que retratasse com bastante leveza a minha idade madura . Planejei tudo cuidadosamente: começaria com a manjada frase “Cada idade tem a sua beleza” e, depois, daria um enter para a linha de baixo e começaria a descrever toda essa beleza...

Foi aí que o bicho pegou.

Na boa, gente, não consigo ver beleza nos meus cabelos ficando cada vez mais finos e mais ralos... Nem na minha pele ganhando um aspecto amarrotado igual à minha blusa de viscose quando sai do varal. Vai chegar a hora que vou ter que substituir o Botox pelo ferro de passar. Desculpem-me, mas não consigo ver beleza nessa triste realidade!

Decidi deixar a beleza de lado e falar das vantagens de ser uma mulher madura. Afinal, nós da idade madura, carregamos um bocado de experiências nas costas... Nesse ponto reli o texto e substituí experiências por 'inutilidades adquiridas'.

Do que nos vale tanta experiência se ninguém nos ouve mais?  A essa altura da vida, os filhos já tomaram seus rumos e voam sozinhos. Ou, se estatelam no chão, também sozinhos.

E os amigos? Podemos passar toda nossa experiência de vida pra eles...

Bem, nossos amigos certamente fazem parte do clube, e como dizia meu pai, burro velho não aceita cabresto.

Ainda pensando no poema, fui navegar pela internet em busca de inspiração. Caí numa crônica com uma visão tão pessimista da 'coisa' que traumatizei. Logo de cara me deparei com as palavras: artrite, artrose, esclerose, catarata e o escambau!

Fiquei com depressão.  Sai desse corpo que esse corpo não te pertence...

Respirei fundo e insisti na leitura; cheguei ao final onde estava escrito “envelhecer com saúde”.

É isso! – pensei animada – vou falar de saúde!

Bati daqui, bati dali, e não consegui juntar as palavras 'envelhecer' e 'saúde' na mesma frase. Minha razão inimiga cochichava no meu ouvido que quando entramos na idade madura estamos caminhando à passos largos em direção a... Vocês sabem.

Agora, começo a imaginar um diálogo mais ou menos assim:

Pobrezinha!... Ela morreu de quê?
De saúde. Tinha tanta que não aguentou...

Definitivamente envelhecer e saúde são palavras opostas.  Minhas fichas começaram a cair quando meu oftalmologista passou a lembrar do meu nome e sobrenome. Quando tive que mudar meus remédios de uma caixinha para um armarinho maior. Quando desci minhas tralhas para o andar de baixo. E quando os meus dias passara a ter 12 horas.

Um pensamento passa como um flash pela minha cabeça: se estou na idade madura, pela lógica o que vem depois é a idade podre... Jesus, joga a boia!

O irônico dessa história é que a minha idade mental não bate com a idade da minha certidão de nascimento. No meu íntimo ainda me sinto com 18 anos! Ainda insisto em dançar I Will Survive nas festas e, volta e meia, vou pra balada com meu filho. Ainda uso os mesmos modelitos de roupas que as minhas filhas usam e vou até às últimas consequências para me equilibrar num salto quinze.

Tive um aluno adolescente que me chamava de 'minha-profe-bicho-grilo'. Ele vivia dizendo que falávamos a mesma língua. Eu de fato gosto da companhia dos jovens e me sinto a vontade entre eles. São nesses momentos que eu esqueço que envelhecer é mesmo uma bosta, como disse Jorge Amado. Mas com jeitinho vou vivendo de ilusões numa reflexão adiada.

Quando é que eu vou envelhecer interiormente?...  Bem, isso eu ainda não sei. Essa ficha ainda não caiu.Um dia vou começar a me sentir ridícula e inadequada. Um dia. Não tem que ser agora.

16 de abr de 2011

Outono - a estação romântica?


É linda essa foto, vocês não acham? Todas essas cores do outono, começando pelo laranja que vai passando suavemente para os vermelhos mais quentes, chega a emocionar... Estou aqui olhando pra ela e pensando que ela deve servir de inspiração para muitos poetas...

Não é verdade.

Estou aqui olhando pra ela e imaginando todas essas folhas em cima do meu telhando entupindo calhas e rufos!
 
Perdoem a minha falta de romantismo, mas é isso que o outono me traz: a água da chuva procurando caminhos pelo meu telhado, e encontrando-o  pelo forro de cedrinho tipo exportação da minha sala de estar. Descobri isso ontem quando uma gota explodiu bem no meio da minha testa enquanto descansava no sofá. Eu olhei para cima e pude imaginar uma lagoa em formação entre o telhado e o forro.

Está na hora de chamar o 'Sr. Quebra-galhos' para limpar o telhado – pensei meio amargurada.

Normalmente não sou tão amarga assim. Talvez seja esses dias chuvosos. Talvez seja os passarinhos que não cantam e os beija-flores que se escondem. Talvez seja porque a beleza fugiu dos meus olhos nesses dias cinzentos...Ou, talvez, as coisas tenham que estar dentro de um contexto para parecerem belas.

Amo morar em meio à natureza e respeito todas as suas manifestações, contudo tenho minhas preferências. O sol, o calor, a primavera, essas fazem a minha cabeça e me dão vontade de cantarolar o dia inteiro. O outono/inverno me deprime e me expõe a situações bizarras de folhas secas versus vento e minha vassoura no meio desse duelo.

Quando eu era adolescente ganhei de presente do meu pai um compacto simples do Roberto Carlos (lembram-se?). De um dos lados daquele disquinho de vinil, tinha a música “Folhas de Outono”. Eu adorava essa musica e vivia cantando:

“As folhas caem
O inverno já chegou
E onde anda
Onde anda o meu amor...”

Ficava toda suspirante imaginando por onde andaria aquele que seria o meu amor...

Nesse exato momento ele está lá fora quase soterrado numa montanha de folhas secas que rastelou do gramado!

Como é engraçada essa vida...

O tempo passa e as coisas vão mudando de cara. Ou será que somos nós que mudamos?... Não é que elas perderderam a importância, a importância é que as perderam...

Às vezes me sinto como alguém que parou de dançar antes da musica acabar.