“O sonho encheu a noite. Extravasou pro meu dia. Encheu minha vida e é dele que eu vou viver. Porque sonho não morre” (Adélia Prado)

20 de set. de 2012

RESPOSTAS



Me perguntaram
Por que nunca coloco datas nos meus poemas.

A reposta:

Na verdade,
Não quero saber dos meus versos
Fazendo morada em nenhum calendário.

Datá-los é decretar o seu fim.

Como posso,
Se as histórias se repetem
Dentro de mim?

Quero os meus versos atemporais,
Ligeiros e inconstantes.
Capazes de viajar
Por uma década num instante!

Há tanto passado presente
E nenhum futuro previsto.

Perde-se a rota,

O Juízo,
A vergonha,
A compostura,
A retidão.

Tudo pode acontecer
No compasso da dança...

Sem música
Sem eira
Nem beira
De esperança.

Escrevo memórias no presente
Quando o futuro
É só um sussurro debochado
Do tempo...

Ah, o tempo...
Esse fabricador de passado.
Como é eficiente esse operário!
Fabrica-a-dor numa linha de montagem.

- Pois, então, tens medo da morte?!
Me perguntaram.

Medo, não tenho,
Eu tenho é raiva dessa senhora!
Atrevida!
Intrometida!
Vai me despertar do sonho antes da hora.

-sueli gallacci

11 de set. de 2012

Louca por eles




Confesso que sou louca por sapatos, mas qual mulher não é?... Se há entre vocês alguma que não é que atire o primeiro scarpin. hehehe

Semana passada decidi organizar o meu closet pra ganhar mais espaço. Uma coisa surpreendente me aconteceu: passei a acreditar em vidas passadas. Sim, eu fui uma centopeia na outra encadernação!

Gennnnnnnnte, pra que tantos sapatos se só tenho 2 pés? Que neura é essa que me impede de parar de comprá-los?... A coisa é meio doida, não resisto à tentação de poder dar aquela cruzada de pernas e exibir uma sola novinha em folha.  E lustrosa. Aquele brilho e aquele cheirinho, hummm...  

Mas, voltando ao closet, depois de esvaziar a sapateira, eu puxei um banquinho, sentei-me, cruzei os braços e fiquei olhando para aquela montanha colorida, agora emergindo do chão. Concluí que essa era uma boa oportunidade para eu exercitar meu desapego à bens materiais e botar fora uns 20 pares.

...15... 10... 5, vai, esse é um bom número.

Minha filha, que não herdou de mim esse apego inútil por certas coisas, vive me dizendo: ‘o que você não usou durante 1 ano, não vai usar mais’.

Com isso em mente e cheia de coragem, peguei o primeiro par: uma sandália preta chiquetérrrrima, salto agulha e um passante furta-cor estonteante... Aaaaa essa não posso, usei na primeira formatura da Nic... foi um dia tão especial... Peguei o segundo: um scarpin vermelho... Poxa, esse é uma celebridade, retratei-o numa tela...

Guardei o vermelhinho, peguei um tamanco Anabela com uma plataforma tipo prédio de 5 andares, e botei no saco de lixo. Não que eu fosse jogar no lixo, era só um meio de transporte até a lavanderia. De lá seriam todos doados.

Um segundo depois, enfiei a mão no saco e depositei-o de volta à prateleira. Não me julguem antes de ouvirem os meus argumentos:

Sabe aqueles dias que você necessita estar mais alta, mas sem condições físicas pra encarar um salto 12?... Pois é, eu também sei. Por isso poupei meu tamancão.

O próximo foi um Jorge Alex, esplendoroso, todo fechadão com um zíper lateral. Verde. Mas, não um verde qualquer, um verde que passeia entre a bandeira e o abacate. Eu usei-o no teatro, na estreia de uma peça que não lembro o nome. E nem os atores. Depois usei no... na... Não importa, o que importa é que li numa revista que sapatos verdes voltarão à moda logo, logo... Vai voltar pra prateleira seu lindo!

Depois de reviver muitas festas, datas, danças, viagens, etecetera e tal, cheguei num Chanelzinho de camurça. Pretinho, basiquinho, salto 10 e cafoninha... Bem que eu poderia guardar só esse pra recordar aquela festa de casamento do...da... Isso foi quando mesmo?... Final da década de 80?... ou já era 90?...

Sempre fui péssima com datas. Acho que é por isso que guardo coisas como emblemas de momentos que pontuaram a minha vida. Guardo alguns sapatos antigos porque neles estão impressos os passos de minhas trajetórias... Nooosaaaaa, que lindo isso que acabei de escrever!!

Pena não ser verdade. A verdade é que sou mesmo louca por eles.

Horas depois dei por encerrada minha tarefa no closet. Levei para a lixeira um par de sandálias Havaianas com uma correia preta e outra azul. E não se fala mais nisso!

22 de ago. de 2012

Apenas mudando o passo da dança...


 Arte digital

Tem pessoas que adoram mudar os móveis de lugar. Outras, a decoração da casa, ou parte dela; anualmente!

Na semana passada uma amiga me ligou pedindo dicas de decoração. De novo??? Pensei.

Depois que desliguei o telefone, girei minha cadeira e percorri os olhos pela minha sala. Daqui do alto do mezanino onde fica o meu escritório-atelier, tenho uma visão ampla. O que vi foi a minha mobília morando nos mesmos lugares de sempre, desde que nos mudamos para essa casa. Até as cadeiras me pareceu que voltam sozinhas para os seus lugares.

Naquele momento constatei que mudanças me assustam um pouco. E que quando me bate aquela vontade de renovar, eu mudo a cor do esmalte da unha. Às vezes mudo a cor e o corte dos cabelos.

É engraçado isso porque no meu trabalho uso de toda minha ousadia.  Vivo em constante mudança: raramente pinto duas obras no mesmo estilo, sequentemente.

Minha grande descoberta foi que a arte é ilusão e vida real é outro departamento. Quando não gosto do que eu pinto, eu desfaço, apago, refaço, descarto... Isso não implica em consequências.

Bem, mas quando muda o compasso da música, temos que mudar o passo da dança.  

Na vida também é assim e ninguém pode fugir disso. Chega aquela fase que as coisas vão afunilando para uma mudança, que é inevitável, pois não somos mais capazes de sustentar o peso das escolhas que fizemos quando éramos mais jovens, e portanto, com toda a reserva de gás para queimar. Não se trata de arrependimentos pelas escolhas, e sim da sensação de já tê-las vivido plena e completamente.

Quando chega o momento que tudo grita por renovação, temos que ser capazes de ouvir, ou corremos o risco de perder a oportunidade de trocar o medo pela vida mais leve e prazerosa.

O medo bloqueia a nossa capacidade ponderativa e ainda sopra mentiras nos nossos ouvidos. Quando optamos pelo desconhecido é evidente que tudo pode não sair como o calculado, mas quem disse que viver é ciência exata?...  A vida é como uma roleta e jogamos os dadinhos todos os dias. Se ganha e se perde, mas se estamos vivos, significa que ainda estamos no lucro.

Tudo que temos que fazer é dar uma chance para o inesperado, e é bem provável que ele já seja nosso velho conhecido de sonhos adormecidos.

Na minha primeira gravidez, disse ao meu marido em tom de brincadeira que estava com desejo de comer pitangas azuis. Digo agora, 36 anos depois, que venha o novo!... E que ele tenha o sabor de pitangas vermelhas mesmo, pois hoje, mais sábia e com mais maturidade, me contento com menos.