“O sonho encheu a noite. Extravasou pro meu dia. Encheu minha vida e é dele que eu vou viver. Porque sonho não morre” (Adélia Prado)

3 de out de 2013

AMARGA (IN)DECISÃO




 - Sueli Gallacci

- Ascenda a luz – pediu ela.
- Já está acesa.
- Que pena... Gosto de olhar nos teus olhos quando tenho um pedido especial a fazer...
- Não faça isso comigo – implorou ele. A voz saiu num sussurro quase inaudível.

Ele já esperava por aquele pedido, entretanto, não se preparou para ouvi-lo. Decidiu em seu íntimo que esta seria a primeira vez que não chegariam a um acordo.

Ela insistia no pedido: argumentou que o tempo não era um inimigo invencível para ele, podia vencê-lo. Ele desejou não ouvir mais nada. Seus argumentos eram inaceitáveis. Mais do que isso, estava impedido de aceitá-los.

Ele calou-se. Afastou-se dela e foi se sentar numa cadeira distante uns quatro passos. Cobriu o rosto com as mãos e chorou mansinho para não ser ouvido.  Ela chamava por ele entre um gemido e outro. Eram mais agudos agora. As palavras fragmentadas, a respiração cortada.

- Será o nosso segredo... eu lhe juro – disse ela, com um sorriso débil.

Ele esfregou a manga do jaleco no nariz num frenesi dolorido e silencioso. Puxou pela memória, tinha que buscar forças naquelas palavras... Eu juro, por Apolo médico... nem remédio mortal, nem um conselho que induza a perda... O Juramento de Hipócrates. Ele era tão jovem e despreparado naquela época. Nunca imaginou que um dia, lembrar-se daquelas palavras significaria sua própria salvação. Palavras que recitou segurando o riso com os colegas, na euforia da formatura. Agora, tinha que lembrar-se delas, e, no entanto, tudo que lhe vinha à lembrança eram os cabelos dela – fartos e lustrosos. A imagem dela, linda, dançando pra ele na sala de estar. Sua silhueta curvilínea. Suas mãos perfeitas de dedos longos. Dedos de pianista, dizia ele. Ele nunca soube por que ela escolheu ser bailarina e não pianista. Sentia ciúmes da sua profissão. Suas pernas à mostra o irritava. Sentia ciúmes do jeito que ela inclinava a cabeça para o lado quando sorria. Quando entrelaçava os dedos na mecha de cabelos que insistia em deslizar pela testa. Tantas vezes desejou que ela não usasse aquele perfume que marcava sua presença em todos os lugares. Onde está o aroma do seu perfume agora?... O éter impregnado por toda a clínica o matou.

Talvez não tenha sido boa ideia transferi-la para sua própria clínica. Devia tê-la deixado no hospital aos cuidados dos seus colegas. A rapidez do agravamento da doença deixou-o desnorteado. Sentia-se como um sonâmbulo impedido de raciocinar. A verdade era que, em todos esses anos, nunca conseguiu recusar um pedido dela. Mediante a vontade dela, equipou sua clinica às pressas com todos os recursos disponíveis. Quantos dias haviam se passado desde então? Três? Quatro?... Ele não sabia, ainda não havia dormido. Vinha-lhe ministrando doses maciças de analgésicos para neutralizar a dor. Agora, entretanto, o remédio não surtira efeito.

Em seu íntimo também desejou trazê-la para a clínica. Planejou em meio ao desespero ficar às sós com ela. Mantê-la acordada enquanto ela suportasse – não pelas perguntas que deixou de fazer, elas nada mais significavam: era pelas palavras não ditas, trocadas por gestos que não chegaram a dimensionar o seu imenso amor. E depois, nada mais faria, a não ser olhar para ela até se esgotar o tempo...

As palavras dela lhe pareciam mais urgentes agora, mas nenhuma nota de fraqueza ou medo: somente coragem e determinação.

- Tome a decisão certa para nós dois... não adie mais... liberte-nos...

Ele aproximou-se da cama, tomou a mão dela entre as suas e disse:

- Tudo bem, meu amor. Vou fazê-la dormir.

Com passos dementes, caminhou até o armário onde guardava os medicamentos. O curto trajeto lhe pareceu a coisa mais custosa a fazer em toda sua vida. Ao alcançá-lo, evitou olhar sua imagem refletida no vidro. Abriu a porta bem devagar. Apanhou o pequeno frasco de rótulo amarelo e segurou-o na palma da mão. Permaneceu imóvel por alguns instantes, apenas olhando-o fixamente. Experimentava de um intenso combate interior.  O tempo: ele abominava aquele poder sobre o tempo. O desprezível poder de declarar vil sentença.

A seguir, recolocou-o de volta e apanhou outro.