“O sonho encheu a noite. Extravasou pro meu dia. Encheu minha vida e é dele que eu vou viver. Porque sonho não morre” (Adélia Prado)

30 de abr de 2013

DOTES CULINÁRIOS





Para que não restem dúvidas, devo esclarecer que sou boa cozinheira. Aliás, eu sou ótima. Pensando bem, eu beiro a perfeição. Menos, Maria Sueli, menos.

Não me interessa o título de melhor chef de cuisine internationale do universo, mas ganhar o rótulo de cozinheira meia-boca só por que não consigo fazer 2 coisinhas na cozinha, não admito. Acho injustiça com alguém que já fez até pratos requintadíssimos, como, por exemplo, strogonoff com batata palha – o legítimo!!! Flambado com conhaque e tudo! Isso pra citar apenas uma das minhas especialidades. Ressalto ainda, que já consigo virar panquecas jogando pro alto sem que elas colem no teto. Isso mesmo, elas voltam  íntegras e lindinhas para a frigideira. Esse foi um grande sonho realizado!

Eu não cozinho no dia a dia, somente nos finais de semana: justamente para não enjoar, perder o gosto pela coisa e acabar ‘errando na mão’. Daí minha frustração quando o troço desanda.

Capítulo bolo: Não cresce, o desgraçado. Nem com promessa de subir de joelhos até a cabeça do Cristo Redentor. Compacta como se tivesse um vácuo dentro dele. Já mudei a marca do fermento, da farinha, do leite e do ovo: troquei de galinha branca por galinha preta. Testei a carijó. Por ultimo, a caipira. Não teve jeito, continuou empastado e grudento. Disseram-me que era por que eu abria o forno enquanto estava assando - o sensível e temperamental ‘indivíduo’ sofria choque térmico.

Fui radical: vedei todas as frestas da porta com fita crepe suficiente para não passar nenhuma molécula de oxigênio.

CRESCEU!!!! QUE EMOÇÃO!!!!!... Maaaasss... foi só eu retirá-lo do forno, o bicho afundou!! Formou um buraco no centro tão fundo, mas tão fundo, que me lembrou as olheiras da Gretchen...

Outra pessoa me disse que para não acontecer isso, eu tinha que deixar o infeliz no forno até esfriar totalmente. Foi o que fiz. Desliguei o fogo e fui fazer outra coisa. Tinha que ocupar a minha mente e esquecer o dito cujo. E esqueci mesmo. Tirei-o de lá uma semana depois direto pro o lixo.

Mas quem disse que eu preciso fazer bolo?... Realmente não preciso. Tem ‘ilhares’ de confeitarias que vendem bolos deliciosos. Tem uma ótima aqui perto da minha casa. Sempre passo lá e compro o de fubá com erva-doce, meu preferido. O problema é que eles colocam pouca erva-doce e eu gosto de muuuuita. O suficiente para eu pensar que estou mastigando areia...

Capítulo bife: Enrola, o maldito. Fecha como uma concha. Na hora de comer, tenho a impressão que estou mastigando uma sandália Havaianas com gosto de isopor. Já tentei com tempero, sem tempero, muito óleo, pouco óleo, sem óleo, com azeite, manteiga, frigideira fina, grossa, de alumínio, de ferro, teflon, na chapa, Ufa! Cansei! Tô desistindo da vida...

Só não vou desistir por que persistência é meu nome, determinação é minha marca, meu lema, minha bandeira. Estou casada há quase 4 décadas, e desde então, venho tentando o bife perfeito.Já tentei fazer o tal de panela de pressão e o resultado foi a panela que foi pro lixo. Era presente de casamento de incalculável valor sentimental. Essas coisas machucam a gente...

Já me rebaixei ao ponto de pedir a receita para a melhor fazedora de bife do planeta: minha mãe.

Fiz pior: vali-me de uma caderneta, uma caneta e montei um passo a passo bem detalhado. Grudei nela desde a hora que ela entrou no açougue até depositar na mesa aquela travessa fumegante e suculenta. Anotei tudo, inclusive cronometrei o tempo que levou para aquecer a frigideira.  

Depois de estudar a caderneta por vários dias consecutivos, resolvi colocar em prática todo meu conhecimento teórico. Fui a uma casa de carnes (a melhor da região) e comprei 5 quilos de contrafilé (queria esbanjar meus novos predicados). Contrafilé é meu bife predileto - feito pelos outros, naturalmente. Entretanto, algo me dizia que seria diferente dessa vez. Otimismo acima de tudo.

Com entusiasmo fiz trabalhos de bastidores: limpei, bati, temperei, tudo de véspera e no maior capricho. Embalei em papel filme e levei à geladeira. Mal pude dormir naquela noite, tamanha era a expectativa...

No dia seguinte, embora um pouco nervosa (normal, né, gente), meti a mão na massa com a cara e a coragem. Estendi o primeiro na frigideira com o mesmo cuidado de quem cobre um bebê. ATENÇÃO!!! Preparando-se para enrolar em 3...2...1...

Larguei o amaldiçoado queimando e fui ligar pra minha mãe:

- Mãaaaaaaaaae, o bife enrolou – disse chorosa.
- Você fez os picotes na gordurinha ao redor?
- Gordurinha?!... Que gordurinha? Que picotes???

Imediatamente me lembrei do açougueiro perguntando a ela: ‘vai querer que eu faça os picotes?’

Eu havia entendido ‘pacotes’.

23 de abr de 2013

FACEBOOK: há controvérsias...



Nunca vi nada tão amado e odiado ao mesmo tempo. Às vezes, pelas mesmas pessoas. Estranhíssimo isso!

Estranho ver tantas pessoas falando mal do Facebook, mas aceitam 10 mil convites de amizade e continuam lá, logadas o dia todo espreitando a vida dos ‘amigos’. Estão em off, mas basta mandarmos um mensagem inbox que em menos de 10 segundos chega a sinalização de ‘mensagem lida’. Parece coisa de mulher que desce a lenha no marido, mas continua casada com ele. E todos muito preocupados com a exposição, entretanto, têm mais perfis abertos do que fechados. Perfis completíssimos, sem nenhuma informação pessoal bloqueada. Como posso entender isto?

Minha intenção não é falar mal do Facebook, até por que tudo que me incomodava nele já descrevi aqui e já solucionei.  E não tinha nada a ver com o site que sempre me pareceu uma boa ideia a que se propõe: conhecer pessoas na superficialidade numa comunicação genérica e rasa.

Eu faço parte desse ‘entretenimento oco’, como chamam alguns, e continuo lá por isso mesmo. Confesso que tenho uma queda por futilidades despretensiosas que me proporcionam ataques de risos. Não acredito que lá seja o lugar ideal para assuntos de maior relevância, quando fica claro que ninguém lê nada que se apresente com conteúdo robusto e mais espesso e profundo do que uma polegada.

Só sei que meu mundo nunca mais foi o mesmo depois que entrei para o Facebook. Passei a ver coisas nunca antes imaginadas. Estou feliz lá, encontrei exatamente o que esperava encontrar quando aceitei o convite de uma amiga há 4 anos: DIVERSÃO. Ao invés de morrer curiosa, fiz meu perfil com o mínimo de informação permitida e ingressei para esse mundo do ‘faz de conta’. 

Vejo o Facebook como um universo à parte, onde todo mundo é feliz, bem sucedido, bem resolvido e politicamente correto. Acho isso uma maravilha, pois a vida real já é amarga que chega. Há exceções, entretanto. Tem alguns passando por amarguras e acham importante compartilhar com os amigos: uns como desabafo, outros pedindo apoio e orações... Tem as que descrevem sem nenhum pudor a ‘peleja’ com os filhos, genros, e noras... e as baixarias com o marido. Tem quem manda uma enxurrada de indiretas para a suposta affair do marido ou namorado – que está lá, obviamente, na lista do safado. Ela só não sabe exatamente quem é e atira para todos os lados.

Tem também as pensadoras de Instagram que postam reflexões filosóficas profundas de autoajuda, muitas vezes poéticas e sempre acompanhadas das manjadas fotos no espelho fazendo bico. Eu particularmente prefiro a do sorriso congelado, aquela de repuxar os beiços e exibir os dentes. Nooossa, essas são as minhas preferidas – quase rolo de rir. As fotos fazendo pose, então, sem comparação! São as que alegram meu dia: entortam uma perninha pra cá, a outra pra lá, e no final ficam igual a uma siriema com cãibras.

Não posso deixar de fora as que fazem do facebook um diário: contam tudo, tuuuudo mesmo!! O que comeram no almoço, aonde foram, com quem foram... Depois se despedem ‘Tô indo desencravar a unha do meu dedão do pé que tá muito inflamada’. E postam a foto do dedão enfermo pra validar a informação. É nessa hora que eu penso na utilidade do Facebook: já imaginaram ter que ligar, todos os dias, para 800 pessoas só para avisar que vai tomar banho? Não dá né gente.

Relacionamentos na internet é isso, encontramos de tudo e nem nos chocamos com mais nada. Tem desde gente alienada que não tá nem aí para os que fomentam mudanças profundas no mundo, até gente pregando a virtude e os bons costumes numa verdadeira avalanche de moralidade, mas faz crocodilagem com os amigos. (super normal ué, façam o que mando, não façam o que eu faço...

Eu precisaria escrever 10 crônicas, no mínimo, para elucidar as tantas lições de vida que tenho absorvido com relacionamentos virtuais. É de fato uma caixinha de surpresas.  Em meio a tantas coisas esdrúxulas e tantas amizades transitórias, onde a palavra ‘amigo’ cabe em qualquer lugar, tenho visto pessoas estreitar laços verdadeiros de amizade. Pessoas que marcam encontros em grupos para se conhecerem pessoalmente. Desses relatos não acho graça, fico emocionada.

Como vemos, pessoas são complicadas, e não os sites de relacionamentos. Mas os sites precisam de pessoas pra funcionar e é aí que mora o perigo. Mesmo nos cercando de todos os critérios, no mundo virtual nunca saberemos quem é quem. Ainda bem que existem as ferramentas de privacidade e de bloqueios que funcionam perfeitamente bem. Tenho a impressão que muitos não sabem disso. Ou não usam para poder criticar depois.

8 de abr de 2013

Popularidade: ajuda ou atrapalha?




Se a pessoa está lendo um livro sentada (quase deitada) num banco de praça, sob a sobra refrescante de uma árvore frondosa, ouvindo o canto sinfônico dos pássaros numa tarde vadia, qual a probabilidade de um estranho sentar-se ao lado e começar a tagarelar sem parar?... Se a pessoa for eu, a probabilidade é de 100%.

Aconteceu isso no sábado passado. Há quanto tempo não me dava esse luxo, mas o dia estava lindo e, além do mais, eu tinha um livro (recomendado no Facebook) morando virgem na minha cabeceira por uns 3... talvez 40 meses.

Lá pela página 102, quando o romance (insosso) do improvável casal tipo Eduardo&Mônica  começava a dar os primeiros sinais de que ia esquentar, a babá com a criança no colo sentou-se ao meu lado sem pedir licença (para minhas pernas esticadas).

Sem muito rodeio, contou-me que era nova no pedaço, estava somente cobrindo as férias da babá oficial. Depois, meteu o pau na patroa.  Emendou no falecido marido (santo homem) que partiu antes da hora deixando-a com 4 filhos pra criar. Detalhou miudinho cada filha e se ateve ainda mais no único filho (riqueza de menino!) que tinha entrado na faculdade. Quando ela pulou pra nora, fechei o livro.

O 'papo' se esticou até às tantas, e seria méeedio se não fosse um monólogo e eu a plateia. Pra sair dali só Gzuis na causa. Consegui uma brecha quando a criança mostrou sinais de número 2. 'É melhor trocá-la', disse já levantando do banco.

Mas não é só nessas ocasiões que sou abordada por estranhos querendo 'trocá uma ideia'. Antes fosse! É na fila do banco, do supermercado, na padaria, na rua... E se tiver um bêbado por perto, adivinha com quem ele vem desabafar?

Deve ser o meu sorriso colgate total whitening que é irresistível... (nada disso, a culpa é dos meus dentes que estão sempre um passo adiante de mim).

Tem ainda o fato de que todo mundo me conhece, coisa inexplicável isso.  Não sei como é possível se não conheço ninguém, nem mesmo guardo nomes e/ou fisionomias. Pior é quando sou reconhecida pelas coisas desastrosas que acontecem comigo: como quando fui desviar de um cachorro e fui parar quase dentro da sala da mulher. Essas coisas marcam a gente pra sempre. Nunca ninguém jamais se esqueceu de mim naquela rua!

Ser popular não é muito bom, não. No tempo de colégio todo mundo me conhecia, desde o diretor (principalmente ele) até o carinha da manutenção que aparecia 1 vez por ano. Tive uma professora que dizia que mesmo calada, eu atrapalhava a aula. Sempre tinha alguém do lado de fora tentando se comunicar comigo pelo vidro. Era na base da mímica. E como éramos craques nisso!

Certa vez, juntaram-se 2 classes para uma prova dela, depois do intervalo. Como sempre era a ultima a entrar na sala, faltou cadeira pra mim. Ela mandou que eu fosse buscar uma no andar de baixo. Na volta, encontrei uma coleguinha de outra sala com aquele 'miniiiiina, preciso te contar uma coisa!'. 2 dedinhos do segredo eu já coloquei a cadeira no chão e sentei. Lembrei da prova no finalzinho. Não foi o zero (escrito bem grande atravessado na prova vazia) que destruiu minha autoestima: foi o sorriso de satisfação daquela filha duma mãe santa...

O trágico é, que quando faço até reza pra materializar um estranho querendo puxar papo comigo, não aparece nenhum ser misericordioso. Como no início do ano passado quando estava no Shopping Alphaville saboreando um café no balcão do point mais point das celebrities (tava lá por acaso, viu gente, só tinha ido pagar uma conta atrasada). Foi no penúltimo gole que duas estranhas (nos 2 sentidos da palavra) se encostaram ao meu lado. Peguei a conversa pelo rabo, mas deu pra entender que elas falavam de um babado forte envolvendo um cantor sertanejo, como é mesmo o nome dele?... Aquele que grita até engrossar a veia do pescoço... Ah! lembrei! Zezédicamargoeluciano. Elas revelavam detalhes sórdidos, digo, íntimos da separação dele com a feiosa simpática Zilu di Camargo.

Como assim?... Vou ficar sabendo ""tudinho"" antes da mídia???

Eu já tinha terminado meu café, mas necessitava ficar por ali. Ir até o caixa pegar outra ficha poderia me custar não saber do chifre desentendimento do casal. Devia ter pedido um pão de queijo, 2 brioches e umas 7 empadinhas pra acompanhar. Levei 5 minutos pra ajeitar a colherinha no pires. Dobrei caprichosamente o saquinho do adoçante. Nada mais a fazer, olhei ao redor sofrivelmente na esperança de ser reconhecida por alguém. Nada.  Afinal, não sou tão popular quanto eu achava – pensei amargurada.

Daí, tive uma luz. Abri a bolsa, peguei o celular, levei ao ouvido e disse 'oi amada, tudo bem?' De vez em quando balbuciava um 'hum-hum'. Os ouvidos atentos (no buxixo). Foi então que as duas pegaram suas xícaras e foram sentar-se na mesinha beeem longe de mim. Justo na parte do flagra. A balconista me olhava com aquela cara de 'vai querer mais alguma coisa?'. Era hora de me despedir. 'Então tá, combinadíiiissimo querida! Bêeeeijo!' Guardei o celular e me fui.  

Dane-se esse fuxico, nem novidade é. Já cantei essa bola no final da década de 90 quando fomos (quase) vizinhos. Nem precisei de muita imaginação pra saber que a coitada não passava pela alta portaria do condomínio sem enroscar. Devia ter aberto um bolão.

Demorô pra cair a ficha da lerdazinha, cês não acham?

(não me processa que sou pobre).