“O sonho encheu a noite. Extravasou pro meu dia. Encheu minha vida e é dele que eu vou viver. Porque sonho não morre” (Adélia Prado)

11 de fev de 2011

Perseverança é o nome dela


O que os pais podem fazer quando um transplante não chega?
Um rim para nossa filha é tudo que pedimos a Deus.


Amigos!

Estou afastada por um tempo vivendo dias difíceis, mas sem jamais perder a fé e a esperança.
Espero estar de volta em breve trazendo boas notícias.
Um beijo carinhoso a todos.

1 de fev de 2011

Alguém viu minha memória por aí?


Outro dia recebi um email dizendo que o Aspartame causa o Mal de Alzheimer.
Não dei nenhuma importância, visto a quantidade de emails assustadores que eu recebo diariamente. Eu só começo a dar importância às coisas desse tipo quando aparecem no Fantástico. Deletei o tal email e continuei tomando meu cafezinho com 17 gotas de adoçante (não é uma piada, eu tomo adoçante com café).

Mas o que aconteceu comigo logo depois me levou a lembrar do tal email, desta vez com real preocupação: tive um apagão daqueles! Deu branco, branco total! Inexplicável! Constrangedor!

Pensei muito na minha avó paterna que sofria de Alzheimer e, segundo dizem os médicos, é uma doença genética. Minha avó se esqueceu de tudo, até dela mesma. Vivia fugindo de casa e deu um trabalhão danado! Mas ela tinha noventa anos e eu só tenho cinquenta e unsss...

Voltando ao ocorrido, vou descrever exatamente como aconteceu:

Eu estava no estacionamento do hipermercado quando uma moça morena e sorridente caminhava saltitante em minha direção. Ela carregava sacolas, logo presumi que estava de saída e eu acabara de chegar, ainda descendo do carro. Pelo sorriso largo que ela exibia dava pra notar que ficou feliz em me ver ali. Eu ainda olhei para os lados para me certificar se todo aquele entusiasmo era mesmo comigo. E era. O rosto era familiar, isso percebi logo de inicio, mas quem era ela? De onde nos conhecíamos?

Na medida que ela caminhava em minha direção, fiz um esforço descomunal para tentar me lembrar. Lembrar do nome, então, seria o mesmo que pedir por um milagre!

Ela aproximou-se esfuziante e, beijinho pra cá, beijinho pra lá, nossa intimidade era evidente:
- Nooooossa que bom te encontrar por aqui, já estava com saudade.
- Eu também – menti.

A atitude dela me desarmou completamente: se a gente não faz a pergunta “de onde mesmo que nos conhecemos?” logo no início, não fazemos nunca mais.

- Ainda ontem eu e a Marisa falamos tanto de você...

Deus meu, quem é a Marisa? Mais uma personagem entrava na história para agravar ainda mais a minha angústia.

- É mesmo? – perguntei ao acaso E por falar nela, como ela está? – espertinha eu, agora sim, vinha uma pista...
- Está ótima! – morreu o assunto. Sai de cena a Marisa.

Eu já começava a suar por todos os poros e levar aquela conversa adiante era coisa pra mestre do improviso. Eu iniciava as frases com as palavras: viu... sabe... olha... então..., tudo em substituição do nome dela.

Conversa vai, conversa vem, e a dado momento eu não estava mais ali, minha mente viajava vertiginosamente entre o presente e o passado: talvez ela seja uma antiga aluna de pintura, daquelas que já decorou a casa e sumiu... Não, não pode ser, a costumeira frase “preciso voltar às aulas” nem rolou na conversa... Ou, quem sabe, ela é uma daquelas diaristas extras que eu chamo de vez em quando... Mas com essas unhas impecáveis? Duvido! Quem já faxinou a minha casa fica com as unhas destruídas pro resto da vida!... Além do mais, ela parece gostar de mim...

A situação começava a ficar insustentável. Pra mim, pois ela parecia não notar nada e continuava falando, falando... E eu saindo, saindo... pela tangente.

Na primeira brecha pedi desculpas e disse que estava com um pouco de pressa. Despedimos-nos e ela ainda me disse: “me liga se for mudar de horário”.

HORÁRIO – Essa palavra ficou martelando na minha cabeça.

Como sempre faço, comecei pelo setor de hortifrutigranjeiros, mas não conseguia me concentrar nas compras. Toda vez é assim: quando esqueço algo, a coisa não sai da minha cabeça, perco a paz e penso naquilo dia e noite!

Não posso esquecer do alho... Mudar de horário, que horário?!... Noooooossa como a vagem tá cara, será que tá em extinção?... Seria o horário de alguma consulta médica?... Me recuso a pagar por esses tomates atropelados... Será que ela é a mocinha da recepção de algum consultório médico?... Não tem ovos brancos?Na boa, sem preconceito, mas se a galinha não for branca eu tenho nojo... Será que eu já tô tratando do meu Alzheimer e me esqueci?... Olha o preço desses pimentões, devem estar vermelhos de vergonha... Quando chegar em casa vou olhar na agendinha se tenho consulta marcada com algum psiquiatra... Onde eles colheram essa alface, na lata do lixo?... E se eu esquecer de olhar na agendinha?...

A caminho de casa eu ainda pensava na tal moça. Repassei mentalmente dezenas de vezes a nossa conversa. Talvez eu tivesse perdido algum detalhe.

Talvez ela nem exista... Talvez ela seja apenas uma invenção da minha cabeça, um tipo de personagem imaginário dentro da minha loucura... Talvez não seja Alzheimer, talvez seja esquizofrenia... Talvez eu estivesse mesmo doente. Talvez não. Talvez eu sempre fui assim, eu é que não sei... Dizem que quem não é normal não sabe que não é... Mas eu já perguntei pra minha mãe e ela jura que eu sou... normal...

Quando estacionei na garagem de casa, minha filha caçula apontou na porta e perguntou:

- Lembrou de comprar a acetona que te pedi?

- LEMBREI!!! – gritei eufórica.

- Da acetona?

- Não, lembrei DELA!

- Dela, quem?

- Da minha manicure.

Em seguida peguei minha agendinha e fui direto para o telefone:

- É do consultório do Dr. Daniel? Eu quero marcar uma consulta. Urgente!

- A senhora ligou errado.